Já atacado por piratas, actualmente por turistas; exposto, no Inverno, a ventos fortíssimo, tempestades medonhas e ondas que galgando a fortaleza chegam a atingir a torre do farol; cercado de figuras lendárias como o mártir São Vicente, o infante D. Henrique e D. Sebastião: o Cabo de São Vicente, por si, já guarda grandes surpresas. Localizado na freguesia de Sagres, concelho de Vila do Bispo e situado no extremo sudoeste de Portugal continental, é local de culto desde o Neolítico, comprovado pela existência de importantes núcleos de menires e relatos de autores gregos do século IV a.C. de cerimónias religiosas, sendo, naquela época, proibida a presença de seres humanos durante a noite porque acreditava ser um local frequentado pelos deuses. No período em que os fenícios tiveram feitorias no Algarve, tem-se como certa a existência de um santuário dedicado às divindades solares de Hercules-Melcart, enquanto em Sagres existia um outro sob a invocação de Cronos-Saturno-Baal. Já para os romanos, toda área fazia parte do Promontorium Sacrum (de onde derivou o nome de Sagres), ponto extremo do ocidente, onde o Sol, no seu ocaso, fazia ferver as águas do Oceano.
Estrabão numa descrição da Península Ibérica, assim descreveu o Cabo de São Vicente, a que ele chamou de “Cabo Sagrado”:
Este cabo é o ponto mais a ocidente, não só da Europa, mas de todo o mundo habitado. (...) Além disso, o país adjacente a este cabo é chamado de "Cuneus" na língua latina, logo significando a sua forma de cunha. Mas para o cabo em si, que se projecta para o mar, Artemidorus (que visitou o local, como ele diz) assemelha-se a um navio; e ele diz que três pequenas ilhas ajudam a dar essa forma, uma dessas ilhas ocupa a posição do bico do navio, e as outras duas, que têm locais de ancoragem algo bons, ocupam a posição de cabeças-de-gato. Quanto a Heracles, diz ele, não existe nem um templo Dele para ser visto no cabo (como Ephorus diz erradamente), nem um altar para Ele, ou para nenhum outro deus, mas somente pedras em muitos locais, deitadas em grupos de três ou quatro, que de acordo com um costume nativo são giradas por aqueles que visitam o local, e então, depois de derramar uma libação, são movidas de volta. Não é regra, diz ele, ocupá-lo durante esse tempo; mas aqueles que vêm ver o lugar passam a noite na aldeira vizinha, e então entram no lugar de dia, levando água com eles, dado que não há àgua lá.
Consta que em 1520 já existia uma luz que iluminava o Cabo de São Vicente, “um pequeno Pharol, naturalmente muito rudimentar, em uma torre especial do convento da primeira capucha de S. Francisco, que o bispo do Algarve D. Fernando Coutinho, fundara no Cabo de S. Vicente”. Suas origens remontam ao reinado de D. Manuel I (1495-1521), como parte do sistema de defesa da costa dessa região. Esta torre serviria, segundo Frei de Monfort, na sua Crónica da Província da Piedade, de refúgio dos frades que habitavam o convento. D. João III manda, inclusive, construir uma torre mais forte para o resguardo do convento depois destes serem atacados por soldados e marujos luteranos. No entanto, estas obras não foram suficientes, pois em 1587 o corsário Francis Drake toma de assalto o convento e destrói a torre. Consequentemente, o farol mantém-se apagado até 1606, quando Filipe II de Portugal ordena a restauração da torre.
Os modernos baluartes erguidos na ocasião, foram arrasados pelo maremoto consequente do terramoto de 1755. Foi nesta ocasião que a Fortaleza de São Vicente foi mandada construir por D. Maria II. O Farol do Cabo de São Vicente entrou em funcionamento em Outubro de 1846. Inicialmente foi equipado com um aparelho catóptrico e de acordo com registos mantidos, a primeira característica luminosa da luz era “branca de rotação completa apresentando eclipses de 2 minutos e clarões de 2 segundos nos intervalos, fornecidos por 16 candieiros do Dr. Argand com reflectores parabólicos de cobre galvanizado a prata (...). A iluminação é de azeite em geral de má qualidade o que obriga os pharoleiros a espevitar os candieiros 4 vezes durante a noite.». A rotação deste equipamento era produzida por um mecanismo de relojoaria e o alcance luminoso rondava as 6 milhas.O Farol foi abandonado por longos anos, atingindo estado deplorável em 1865. Entra água da chuva no edifício, tudo se encontra oxidado, vidros partidos, reflectores sujos, e o alcance luminoso que era de 30 passa a 16 milhas. Apenas em 1897 iniciaram-se trabalhos de desmontagem da lanterna existente e são feitas obras de beneficiação e reestruturação que incluíram alterações na torre que foi alteada em 5,70m.
As obras são concluídas em 25 de Março de 1908, tendo sido instalado um aparelho lenticular de Fresnel de 1330mm de distância focal, o que lhe confere a categoria de hiper-radiante. actualmente a maior óptica que existe nos faróis portugueses e um dos dez maiores do mundo, consistindo em três painéis ópticos de 8 metros quadrados com 3,58m de altura, flutuando em 313 kg de mercúrio. A fonte luminosa instalada, era um candeeiro de nível constante de 5 torcidas, passando, anos mais tarde, a funcionar com a incandescência pelo vapor de petróleo. A rotação da óptica era conseguida através de um mecanismo de relojoaria. A característica luminosa, conforme reza o Aviso aos Navegantes da época, era constituída por clarões brancos sucessivos de 5 em 5 segundos, rotação em 15 segundos e o alcance luminoso rondava as 33 milhas.O plano de alumiamento de 1883 previa a instalação de electricidade par o farol, o que seria concretizado apenas em 1926. Em 1947, torna-se farol aeromarítimo – uma exigência da navegação aérea durante o período da 2ª guerra mundial. Um ano mais tarde, foi electrificado com energia da rede pública. Em 1949, foi montado um radiofarol que se manteve em funcionamento até 2001, sendo então desactivado por deixar de ter interesse para a navegação. O farol foi automatizado em 1982 e dotado de diversos automatismos, possibilitando-lhe a partir de então, controlar à distância o farol de Sagres.
Informações Técnicas
Local: Cabo de São Vicente
Altura: 28 m
Altitude: 86 m
Luz: Fl W 5s
Alcance: 32 M
Óptica: Hiper-radiante 1330 mm
Ano: 1846
Coordenadas:
Latitude 35° 8.81' Norte
Longitude 8° 59.7'Oeste.
Onde fica:
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Fotos:
Fonte:
Revista da Armada, Abril/2004
Terra de Mouros
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